NO CAMINHÃO DAS MUDANÇAS DE DEUS


Texto:  Jó 42.7-17

Introdução:
No Caminhão de Mudanças
Da janela do meu apartamento, numa manhã de chuviscos finos na cidade, vi estacionar no sobrado vizinho, um caminhão de mudanças. Instante depois parou também um carro ao lado e dele desceu uma família toda animada. Pensei comigo, são os novos moradores da rua que estão chegando no bairro.

O caminhão baú se abriu e a mudança começou acelerada, pois a chuvinha fina, agora apertava. Ainda observando, vi a alegria da meninada com a rua sossegada, com a bola na mão, e umas voltinhas rápidas na bike, sob a ralhação da mãe por conta da chuvinha que apertava.

Mudança é sempre assim: nova casa, novos vizinhos, nova cidade, novos horizontes... Mas ao começarem levar os móveis do caminhão para o sobrado, a mudança revela outro lado: os móveis são os mesmos da antiga moradia. Os móveis são velhos, antigos e que talvez os acompanhe há muito tempo.

Ao ver este quadro, fiquei pensando: Muitas mudanças na nossa vida são de fato assim, situações novas, ambientes novos, desafios novos... mas trazemos internamente (como a mobília dos vizinhos) os velhos hábitos, os mesmo defeitos... as coisas só mudaram por fora!

O personagem bíblico – Jó, estava em uma situação que nenhum de nós gostaria de estar: doente, com problemas de relacionamento com a esposa, filhos mortos todos de uma só vez, falido financeiramente, sendo acusado pelos amigos mais chegados... Tenho a certeza de que Jó desejava uma mudança na sua vida. Uma mudança de tudo aquilo que ele estava vivendo. Mas muitas vezes a espera destas mudanças nos desanima.


A pior coisa que pode acontecer para um ser humano é a perda da esperança. Quando ele entrega os pontos, quando desiste de si mesmo, de lutar pela sua vida, pela sua saúde, pelos seus projetos.

Jó era um forte candidato à desistência.

Afinal de contas, ele perdeu todas as coisas: família, bens, amigos, respeito e saúde. Sua vida virou cinzas. Até mesmo Deus parecia ser adversário e opositor, várias vezes ele questiona a indiferença de Deus (Jó 30.20); a crueldade de Deus (Jó 30.21; 34.12); a injustiça de Deus (Jó 30.26) e a oposição de Deus (Jó 30.19; 33.10).

 O salmista diz: “Deus é meu refugio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações”, mas para Jó, Deus não se parecia com refúgio (não tinha confiança em correr para ele e se esconder nele); e nem fortaleza (se sentia fragilizado diante do Eterno).

Apesar de todo quadro de extrema desolação e fracasso, a bíblia afirma: “Mudou o Senhor a sorte de Jó” (Jó 42.10). Esta é uma afirmação maravilhosa. Não importa qual seja o meu estágio, nem a precariedade da minha situação – Deus pode mudar minha história. 

E você, em qual momento da vida você está passando agora?
Tem pensado em desistir? Anda desanimado e achando que é o fim? Vamos ver como mudanças podem ocorrer, como a história pode ser radicalmente mudada.

1. MUDANÇA ACONTECEM FORA, QUANDO MUDAM DENTRO

 É exatamente isto que vemos no texto. Desde o início do capítulo 42, há uma mudança radical na perspectiva de Jó, em relação a Deus, e as coisas que lhe estavam acontecendo. Houve uma mudança teológica em Jó.

Ele começa a fazer uma nova leitura de Deus.
Os fatos, as condições humanas, sua situação, nada havia mudado. Ele ainda continuava no mesmo estado de saúde, a perda dos filhos era irreversível, ele continuava falido. Tudo estava igual, mas algo estava diferente.

Jó inicia este capitulo quebrantado e com uma nova compreensão de Deus. Antes ele estava questionando, brigando, argumentando, mas agora ele começa com um reconhecimento: “Eu sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado (ou impedido)”. No capítulo 23, Jó fala sobre a soberania de Deus, e este texto é um dos mais claros sobre seu poder e domínio em toda Bíblia. Mas Jó está irritado e zangado por saber que Deus tem todo poder, e ele é impotente, nas mãos deste Deus. A soberania de Deus, ao invés de ser consolo, é uma ameaça. No capítulo 42, ele fala novamente da soberania de Deus. "Eu sei que tudo podes". No entanto, Jó deixa de se sentir ameaçado por esta verdade e torna-se um adorador.Ele começa a louvar a Deus por ver a sua glória e majestade. 

Não é assim conosco? Muitos vêem na Soberania e controle de Deus, ameaça...  Outros vêem na sua onipotência, razões para louvar.

Jó vive as duas dimensões. No final ele está glorificando a Deus por isto. Sua mente mudou. sua cosmovisão e sua teologia mudaram - Deus é o mesmo! Mas esta mudança de mente foi determinante para a mudança "dos fatos". 

Vejo muitas pessoas com coração amargurado. Já viram que "ser agradecido faz todas as coisas melhores?" Gente mau humorada, vive em torno do seu umbigo, e de suas preocupações e não avança na vida. Assim ocorre com aqueles que se sentem vitimizados, que acham que o mundo-igreja-Deus-amigos-vida, todos lhe devem algum e que ele não é feliz porque "nunca lhe deram oportunidade?". Auto-piedade é uma desgraça!

Mudanças ocorrem quando a minha hermenêutica da vida muda.

Muitas vezes queremos que os outros mudem. Deixe-me dar uma má notícia para você: Seu amigo não vai mudar, seu filho não vai mudar, seu marido não vai mudar. Isto é ruim, não é? Mas algo acontece quando você muda sua postura, seu tratamento. Um princípio clássico do aconselhamento cristão é: "Sentimento nem sempre gera fato, fato sempre gera sentimento". Mudanças na nossa forma de agir,determinam mudanças nos outros. Quando deixamos de tratar o marido de uma forma, nós quebramos este vício de comportamento que ele espera de nós. Criamos um novo princípio na relação ação/reação. Se você espera alguma mudança na sua esposa - comece a agir de outra forma. Você muda!. Muitos comportamentos inadequados de nossos filhos tem a ver com a forma equivocada com que os tratamos. Novas atitudes-maiores altitudes.


A mudança de seu coração ocorre em três níveis:
a)- Ele admite sua estupidez e arrogância – “Quem é aquele, como disseste, que sem conhecimento encobre o conselho?” (Jó 42.3). Jó percebe como tinha sido tolo, ao achar que sabia mais que Deus, que Deus não era justo. Sua ignorância é admitida quando ele vê sua limitação diante da glória de Deus. Ele tem uma compreensão da grandeza e da majestade de Deus. Quando entende quão grande Deus é, e quão pequeno ele é, ele percebe que foi tolo demais e falou demais.

b)- Ele admite que sua compreensão de Deus era apenas de terceira mão, ele na verdade não conhecia Deus – “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora meus olhos te vêem” (Jó 42.5). Ele tinha pressupostos sobre Deus, mas não tinha conhecimento empírico de Deus. Deus era um conceito, não uma realidade.

c)- Jó admite o fracasso de sua justiça própria – “Por isso, me abomino, e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42.6).

Certo homem ignorante e distante de Deus se converteu a Cristo. Um amigo lhe perguntou como tinha sido esta experiência com Deus, e ele respondeu:
-Eu fiz a minha parte, e Deus fez a dele.
E o homem retrucou: O que você fez, e o que Deus fez?
Ele disse:
-Eu corri e me escondi o máximo que pude de Deus. E Deus me caçou implacavelmente  até me alcançar.

Mudanças geralmente se dão quando a forma de ler a vida, e a leitura que fazemos de Deus, são modificadas em nós. Os fatos não mudaram, mas o foco da atenção mudou. A situação não mudou, mas mudou o coração. É sempre assim que acontece quando oramos: Os fatos podem não mudar, mas muda o nosso coração. Na maioria das vezes o que importa não é o que nos acontece, mas como interpretamos aquilo que acontece.

2. A HISTÓRIA MUDA QUANDO ORAMOS

O texto mostra que Deus ficou furioso com a leitura equivocada dos amigos de Jó, e disse que eles não deveriam orar porque não aceitaria a intercessão deles. Deus pediu para que eles fizessem um sacrifício com sete novilhos e sete carneiros, mas Jó seria aquele que intercederia por eles.

Estes amigos de Jó, contudo, acreditavam que Jó estava naquela condição de miséria porque havia pecado contra Deus. Deus inverte a lógica.

Jó poderia dizer: “Eu estou fraco Senhor, que outro ore por mim”. Na verdade Jó tinha poucas forças físicas e espirituais para orar. No entanto, começou a orar. Veja como a Palavra de Deus nos ensina: “Mudou o Senhor a sorte de Jó, quando este orava pelos seus amigos” (Jó 42.10). Quem precisava de oração? Não parecia ser Jó? Doente, fraco, cansado, prostrado? No entanto, sua vida começou a mudar enquanto ele orava pelos outros.

Já perceberam como nossas orações são tão auto centradas?
Em geral oramos pouco pelos outros. Na maioria das vezes, oramos apenas por nós.

Deixe-me arriscar uma análise?
Acho que estamos adoecidos demais, e a vida ainda encontra-se no mesmo patamar, porque estamos com os olhos voltados demais para nós mesmos. Nossas orações revelam esta tendência mórbida para a introspecção. Estamos adoecidos do narcisismo que é a errônea base de nossa espiritualidade. O louvor é auto centrado, as orações são egóicas e personalistas. Se orássemos mais pelos outros, esqueceríamos um pouco desta vida introvertida e seríamos curados. Não somos curados porque não temos capacidade de olhar para os outros, de orar pelos outros, de servir os outros. Gente deprimida vive uma relação de auto enamoramento, torna-se importante demais para sair de si mesma, e adoece.

A história de Jó mudou “quando este orava pelos seus amigos”.
Jó era o doente, o frágil, e Deus pede para ele orar. Quando ora, o milagre acontece não apenas a favor dos outros, mas também a favor de si mesmo.
Um dos grandes males desta geração é a oração introvertida. Pare de orar por você que sua sorte vai mudar.

3. A HISTÓRIA MUDA QUANDO DEUS QUER, COMO ELE QUER E QUANDO ELE QUER 

O livro de Jó é um dos livros que mais nos ensina sobre a soberania de Deus. Deus tinha um plano para Jó, e cumpriu cabalmente este projeto em sua vida.

Muito de nosso sofrimento ocorre por permissão de Deus. Ele nos permite passar por situações de tragédias e de perdas, para que aprendamos verdades que só serão apreendidas nesta trajetória dolorosa da vida.

Certamente isto é misterioso demais para seres humanos.
Muitas pessoas perguntam: “Deus é o autor do mal?”. A resposta pode ser sim e não! Ele não é autor do mal moral, mas muitas vezes permite o mal natural. São mortes, perdas, dores.

Em Isaías 45.7 existe uma afirmação que desafia os intérpretes da bíblia: “Eu formo a luz e crio as trevas, faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas”. Em que contexto ele está dizendo isto? Isaías estava profetizando que o povo de Deus seria levado cativo para a Babilônia, e que era Deus quem estava fazendo isto. É neste sentido que o texto está falando. Aquele mal tinha um propósito, era didático, era Deus quem o fazia, permitindo que seu povo fosse levado cativo.

O Deus que permite algo ruim, para realizar seus propósitos, é o Deus que nos levanta, para cumprir seu propósito em nós.

Deus permitiu que Jó passasse por aflições, e agora revela sua graça restaurando repleta e abundantemente a vida de seu servo.

A vida de Jó parecia ter chegado ao fim, mas para o Senhor, a vida de Jó estava cheia de possibilidades, fatos novos e profundos estavam ainda para acontecer. Quando todos achavam que era o fim, o ponto final, Deus via como reticência. “Depois disto, viveu Jó cento e quarenta anos; e viu a seus filhos e aos filhos de seus filhos, até a quarta geração. Então, morreu Jó, velho e farto de dias” (Jó 42.16-17).




Conclusão

Alguns anos atrás, minha esposa estava cansada de trabalhar com pessoas porque não via resultados de mudanças em seus corações, e elas repetiam sempre os mesmos erros e viviam no mesmo patamar espiritual, parecia não haver crescimento espiritual nem maturidade emocional. Não via mudanças significativas nas vidas, apesar delas virem para a igreja, fazerem discipulado. Um dia, desabafou: “As pessoas não mudam!”

De início achei que ela estava certa, afinal de contas, muitas vezes tenho a mesma percepção. No entanto, uma palavra de Deus veio ao meu coração: “Se as pessoas não mudam, não adianta pregar o evangelho, porque o evangelho fala essencialmente do poder de Deus em transformar vidas. “O Evangelho é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16).

Sendo o evangelho poder, podemos esperar operações grandiosas de Deus sobre a nossa história. Deus pode mudar qualquer pessoa, em qualquer circunstância. Ele tem todo poder de mudar a sua história, a sua família, a vida de seus filhos, sua saúde e sua desesperança.  

Talvez sua realidade hoje seja de fracasso, tristeza e derrota. Você encontra-se no fundo do poço, tentando encontrar uma luz no final do túnel, e quando vê a luz percebe que é um trem vindo na direção oposta. A vida de Jó nos mostra como as coisas podem dar reviravoltas.

Muitos ficam admitindo a possibilidade de suicídio, porque não vêem esperança na sua trajetória. Deus tem o poder de tirar gente do monturo, do fracasso, e trazê-los para sua graça. É uma Noemi que chegou a se auto intitular de Mara, que volta de Moabe para Israel , sentindo-se fracassada e achando que Deus a estava punindo: “Chamem-me Mara, porque o Senhor me fez amargar” – que triste veredito! Cerca de dois anos depois, entretanto, ela vai pegar no colo um conhecido personagem bíblico, Obedes, que viria a ser o avó do rei mais amado de Israel, Davi, um homem segundo o coração de Deus.  A história de Rute nos fala de um Deus trabalhando, que há um Deus detrás dos bastidores. Há um Deus em ação.


A história do ponto de vista bíblico é muito mais que uma tragédia. Há um Deus controlando os acontecimentos, agindo na história e Senhor da história. Ele não se deixa surpreender por uma tragédia. Podemos ter certeza que há um Deus por trás de tudo, levando a história a um fim que ele já determinou.